Narrativas dotadas de curta
extensão, o que implica, em sua arquitetura, a adoção de espaço e de tempo econômicos, de poucos personagens e de ação rápida, os contos fascinam
pessoas de idades e de gostos literários variados, daí sua permanente e expressiva popularidade em meio aos leitores de toda época
e de todo lugar. Por sua vez, a versatilidade temática desse gênero textual,
tão ampla quanto a de qualquer romance, permite o conhecimento de um rico microcosmo, capaz, em certos casos, de
enlevar, com a mesma magnitude de um enredo complexo, os sentidos
dos indivíduos que viajam por suas páginas. A noção dos atributos dessas tramas modestas estimulou a extinta editora Círculo
do Livro a investir, na década de 1990, na publicação de coletâneas de contos, entre as
quais Os melhores contos de Natal, de vários autores clássicos nacionais
e estrangeiros, destaca-se como uma que pareceu obter grande apreço.
As histórias da compilação supracitada abordam a data consagrada ao nascimento do Menino Jesus segundo diferentes conjunturas, de sorte que, enquanto algumas revelam um conteúdo doce ou instigante, outras possuem um teor superficial ou até enfastiante. Entre os melhores textos, sobressai-se o de Coelho Neto (1864-1934), membro fundador da Academia Brasileira de Letras, que contraria as expectativas ao empregar uma farta adjetivação na narrativa de "O pároco", porque, no lugar de uma leitura maçante, eleva seu texto às raias da poesia, algo que empresta pureza à abordagem sobrenatural do conto, marcado pela aparição, na primeira noite de Natal posterior a seu falecimento, do espírito do pároco centenário de uma aldeia do Brasil, que, no além-vida, não se abstém de celebrar, acompanhado desta vez por dois anjos, a missa do galo aos fiéis. Também integra a categoria de ótima trama “Os tamanquinhos de Natal”, do francês François Coppée (1842-1908), que tece personagens de acordo com alegorias clássicas do bem e do mal e com estereótipos românticos de pobreza e de riqueza, envolvendo-os numa ação guiada pelo melodrama, que termina em happy ending, semelhante às tramas populares de Dickens, o que equivale a afirmar que, apesar dos exageros do enredo, seu tom sentimental é, além de comovente, moralizante de um modo positivo.
No que se refere aos textos pautados por atrativos medianos, é possível ressaltar "Conto de Natal", do renomado contista francês Guy de Maupassant (1850-1893), que aborda um caso de exorcismo ocorrido num enregelante e soturno inverno numa pequena aldeia da Normandia a fim de ilustrar o poder da fé como virtude literalmente capaz de salvar a vida do ser humano, quando até mesmo a esperança já começa a se esvanecer. Outra narrativa digna de atenção é a da escritora iugoslava Ida Fürst (1850-1900), “A lenda da casa número 15”, trama que se vale de críticas, entre outras, à corrupção política, ao nepotismo compulsório e à exploração proletária, invocando a retidão de caráter, de coração e de alma como pressupostos da entrada de qualquer indivíduo no Reino dos Céus, visto que Deus não ignora as abnegações e as angústias de Seus filhos. Assim, o sr. Casimiro Sukaljevié e seus entes queridos, depois de ouvirem, da matriarca da família, um reconfortante conto natalino em que o Menino Jesus intercede pela sina desgraçada de dois irmãos órfãos, são resgatados por Cristo de seu amargo destino e conduzidos para Sua morada.
A seleção Os melhores contos de Natal garante aos leitores, por meio de 16 tramas, enredos memoráveis, como o conhecido “Cântico de Natal”, do popular escritor inglês Charles Dickens (1812-1870), o meigo “A estrela de Belém”, da prolífica romancista inglesa Elizabeth Goudge (1900-1984), o reflexivo “Sonho de uma noite de Natal”, do eminente literato russo Maksim Górki (1868-1936), e o singular “Markheim”, do famoso escritor escocês Robert Louis Stevenson (1850-1894). Na coletânea há um leque de narrativas que, ainda que sejam diversas em seus fundos socioculturais e em suas fantasias, respaldam-se, invariavelmente, por lições que evocam sentimentos e posturas instruídos, entre outros, pela fé, pela confiança, pelo amor, pela paz, pela pureza e pela dignidade, valores atemporais, universais e essenciais, visto que são, nada mais nada menos, do que humanos.
– Karen Monteiro
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